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Como os protestos de junho de 2013 levaram à eleição de Bolsonaro?

As manifestações fazem 10 anos em 2023 e nós explicamos como elas influenciaram a política nacional

Diogo Rodriguez e Eduardo Acquarone, do Me Explica
#POLÍTICA14 de jun. de 236 min de leitura
Diogo Rodriguez e Eduardo Acquarone, do Me Explica14 de jun. de 236 min de leitura

Você lembra de junho de 2013? Protestos com milhões de pessoas PARARAM o Brasil por várias semanas. Até hoje, os jornalistas, sociólogos e cientistas políticos analisam esses protestos para tentar entender se eles têm a ver com o que o Brasil passa hoje. 

E mesmo depois de dez anos, ainda não dá pra dizer exatamente o impacto que eles tiveram, né, Diogo? Ainda vai levar um tempo pra entender o que aconteceu naquela época. Foi impressionante e assustador. 

Entenda o que aconteceu em 2013 e os impactos que os protestos têm até hoje.

Como começaram os protestos em 2013? 

Dá pra dizer que tudo começou no dia 6 de junho de 2013, com um protesto do Movimento Passe Livre. O MPL, como ele é conhecido, estava protestando contra o aumento no preço da passagem do transporte público, que tinha passado a custar TRÊS REAIS E VINTE, um aumento de VINTE CENTAVOS. 

Então foi esse movimento que começou tudo?

Olha, o Movimento Passe Livre já fazia protestos antes. Aliás, sempre que tinha aumento em várias capitais do Brasil, estava lá o MPL protestando. Esse protesto de SEIS DE JUNHO não era exatamente uma novidade. E também não era novidade o fato de que a polícia militar de São Paulo reprimiu a manifestação de maneira violenta. O que ela fez naquele dia também. 

Quer dizer que depois desse dia os protestos gigantes começaram? 

Não. Aquelas manifestações enormes que aconteceram em várias cidades do país começaram em 17 de junho, alguns dias depois. Mas os protestos do MPL em São Paulo começaram a crescer depois do dia SEIS. Até que veio o dia CATORZE de junho, uma sexta-feira. Nesse dia, os protestos estavam maiores. E a polícia foi especialmente violenta e chegou até a dar um tiro de bala de borracha no rosto da Giuliana Vallone, repórter da Folha que estava cobrindo a manifestação em São Paulo. Acho que dá pra dizer que a grande violência do dia 14 ajudou a fazer com que os protestos do dia 17, uma segunda, crescessem muito. 

Mas, calma. A manifestação começou em São Paulo e depois ficou nacional, certo? Estava todo mundo protestando contra o aumento da passagem em São Paulo?

Então, é aqui que a coisa fica confusa. Uma coisa que os sociólogos, os jornalistas e os cientistas sociais perceberam foi que, a partir do dia DEZESSETE, as demandas dos manifestantes começaram a ficar mais gerais. Começou a aparecer uma insatisfação geral com a economia, com a política e com a maneira que o país estava sendo conduzido. 

Como assim? O que as pessoas pediam? O que elas queriam?

Acho que dá pra gente dizer que uma parte dos manifestantes estava incomodado com os gastos que estavam sendo feitos para receber a Copa do Mundo, que aconteceu em 2014, e a Olimpíada do Rio, que foi em 2016. E estavam comparando esses gastos com a situação da educação, da saúde e dos serviços públicos em geral. Dá pra interpretar a coisa toda assim: já tinha muita gente incomodada com várias questões aqui no Brasil. Os protestos do Movimento Passe Livre acabaram servindo de gatilho para uma insatisfação geral, que virou um movimento enorme. 

Tá, mas quem comandou essa história toda? Foi a direita? Foi a esquerda?

Essa é uma das coisas malucas desses protestos: não dá pra saber muito bem quem comandou. A gente sabe com certeza que as manifestações do começo de junho foram sim chamadas pelo MPL. Mas, depois que as pautas das manifestações ficaram confusas, eles até declararam publicamente que estavam deixando de ir pra rua.

O que as pessoas pediam? Quais eram as demandas?

Começou com o aumento da passagem, mas aí a coisa ficou difusa. As pessoas pediam o fim da corrupção, a melhoria dos serviços públicos, o fim do foro privilegiado, menos gastos com Copa e Olimpíadas, muitas coisas ao mesmo tempo. Um das frases que a gente mais via era: "Não é só pelos vinte centavos". Isso queria dizer que as pessoas estavam protestando por algo mais que apenas o aumento da passagem. Era um movimento de insatisfação geral com a política que não sabia exatamente o que queria. Mas que queria protestar na rua. 

Qual foi o tamanho desses protestos?

É difícil medir. Mas no dia 20 de junho, 1 milhão de pessoas saíram as ruas em 388 cidades do Brasil. Muita gente foi pra rua, isso é fato. Nas capitais, como São Paulo, Rio, Porto Alegre, Belo Horizonte e outras, tudo parava. 

E esses protestos tiveram algum resultado?

Olha, o governo da Dilma Rousseff, que era a presidenta na época, tentou dar uma resposta. Pra tentar levar mais saúde para as pessoas que precisavam, ela criou o Programa Mais Médicos. O Congresso Nacional arquivou uma Proposta de Emenda à Constituição que queria limitar o poder de investigação do Ministério Público. A lei de delação premiada, que foi muito usada na Lava Jato, também foi uma reação aos protestos de junho de 2013. 

Por que tem gente que diz que junho de 2013 é o mês que ainda não terminou?

Porque pra alguns cientistas sociais, esse episódio teve um impacto forte na política brasileira. Por causa desses protestos, várias figuras políticas antissistema ficaram famosas e ganharam relevância, como o Jair Bolsonaro. 

O que uma coisa tem a ver com a outra?

A lógica é a seguinte: os protestos de junho de 2013 começaram pedindo a redução do preço da passagem, certo? Mas, quando eles cresceram, passaram a ter demandas bem difusas e confusas. Mas que tinham uma coisa em comum: elas eram contra o sistema político e a política em geral. Tanto que teve gente que apanhou quando foi pra rua vestindo camisa e levando bandeira de partidos de esquerda, como o PT. Os protestos de 2013 acabaram dando força para um movimento anti-política, a gente pode falar assim. 

E como a coisa chega no Bolsonaro?

Bom, o movimento anti-política de 2013 ajudou a dar força para os protestos anti-PT de 2015 e 2016. E, nesse processo, foi também dando força para pessoas que se diziam contra a política tradicional. Vários políticos embarcaram nessa onda. Até o João Dória, que é do PSDB, um partido muito tradicional. E nessa onda veio também gente como o Wilson Witzel, ex-governador do Rio, Daniel Silveira, ex-deputado federal pelo Rio, Kim Kataguiri, deputado federal por São Paulo e o próprio Bolsonaro, que foi deputado por décadas e virou presidente. 

Quer dizer que a gente pode pensar que os protestos de 2013 deram força pro Bolsonaro?

Sim, é um jeito de interpretar a coisa. Em 2013, começou a ganhar força um movimento que era contra a política chamada de TRADICIONAL, que era representada pelo PT, pelo MDB, pelo PSDB e outros partidos conhecidos. 

Será que pode acontecer de novo um movimento que nem o de junho de 2013?

Esse é o tipo de previsão que é impossível de fazer. Não dá pra saber. Ninguém foi capaz de prever o que aconteceu em junho de 2013: nem a direita, nem a esquerda, nem os cientistas sociais, ninguém. Mas esse com certeza é dos momentos mais interessantes e confusos da história recente do Brasil. A gente ainda vai ver gente estudando junho de 2013 por muitos anos pra tentar achar respostas. 

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